Novamente ela, a morte, insistira em visitar os meus. Desta vez ela tem sido demasiadamente sorrateira. Não levou consigo quem estivesse no tempo de partir. Pelo contrário, ela esteve aqui, aliás... continua aqui para matar a conta gotas uma relação que parecia ser jovial e ter uma extensa estrada pela frente.
Deste ser a morte já arrebatou a atenção, o carinho e a compreensão. Deixou, no entanto, um corpo forte em rancor e medo e um espírito fragilizado e escasso de afeto, necessitando dos outros extrema piedade para com o seu estado de degradação.
Sinto que só mesmo com muita força ela conseguirá escapar. Para tanto, tenho feito o possível para ajudá-la. Não tenho permissão para visitá-la, mas até com meus pensamentos, direta ou indiretamente, tenho invadido a sua UTI. Quero apenas dizer-lhe que se há uma vida pela qual preservar, faço o que for necessário para fazê-la viver, desde que ela queira seguir contemplando esta possibilidade como um desejo inerente a sua condição de ser.
A sua vida parece estar por um fio, ou melhor, parece estar em suas mãos. Embora esteja hospitalizada e sob cuidados médicos, ela mais parece estar num penhasco. De um lado há quem anseie por seu regresso e, portanto, lhe ofereça as mãos para agarrá-la e trazer-lhe de volta ao convívio saudável. Por outro lado, embora tenha este aparato à disposição, ela parece ter escolhido a morte como realidade próxima.
Ao cobiçar a morte, dispensa-se a possibilidade de lutar pela superação da dor. Indiscutivelmente, esta é uma experiência profundamente difícil. E quem disse que viver é fácil? Assim como amar pressupõe cuidados que nem sempre são concebidos como bons, viver é uma arte que requer atenção. Em qualquer relacionamento sadio, subentende-se que um dia as partes experimentaram o diálogo denso e a tristeza para, seguidamente, vivenciarem genuinamente a liberdade para serem alegres.
Em outras palavras, nem sempre a nossa vida será alegre em sua completude. Sofrer hoje, talvez, seja uma etapa necessária para alimentar e potencializar um afeto e esperança fragilizados. Desistir, embora não seja muito exitoso, é muito prático para mascarar a dor, apagar o passado e se distanciar de quem um dia foi a gênese da sua preocupação. Acrescente-se a isto a pior das distâncias: a distância de si mesmo. Esta, indubitavelmente, empobrece o ser, faz dele vítima, limita seu crescimento e o aliena de seus desejos, sentidos e verdades.
Infelizmente, parece-me que ela escolheu o caminho da praticidade. Apesar de ter feito o que me foi possível para lutar por sua sobrevivência, ela agora está em profundo silêncio. Será que morreu? Há dias tenho questionado esta possibilidade. E só em pensar nisto uma parte de mim também parece ter partido. Mesmo que eu reconheça que meu envolvimento neste processo foi intenso, senti falta do outro lutando por esta causa. Ainda assim, tenho sofrido com sua ausência de forma inenarrável.
Compactuando com as palavras de Caio Fernando Abreu, hoje clamo “Oh Deus, como é triste lembrar do bonito que algo ou alguém foram quando esse bonito começa a se deteriorar irremediavelmente”.
Da experiência vivida, o que me resta é o luto por esta perda.
Ao buscar forças para me desvencilhar da confusão que me involucrara, encontrei em “perdas necessárias” o impulso vital para despertar minha força interna para seguir. Ao me envolver com sua voz suave e firme, os dizeres do Pe. Fábio de Melo ofereceram a mim o acolhimento tão desejado. E, assim, a dor e a angústia materializados em meu sofrimento de luto vivido nos últimos dias puderam então ser mitigados.
Para o meu consolo e esperança, contento-me com estas palavras que me propelem a viver o meu presente. E voltar a viver o presente é a graça mais valiosa que a vida hoje me oferece. Agora sim... outra vez estou a favor do vento que parece soprar aos meus ouvidos que devo usar aquilo que me foi desfavorável para uma finalidade: o meu crescimento.
Perdas Necessárias
Deixa partir
O que não te pertence mais
Deixa seguir o que não poderá voltar
Deixa morrer o que a vida já despediu
Abra a porta do quarto e a janela
Que o possível da vida te espera
Vem depressa que a vida precisa continuar
O que foi já não serve é passado
E o futuro ainda está do outro lado
E o presente é o presente que o tempo quer te
entregar
Fala pra mim
Se achares que posso ouvir
Chora ao teu Deus se não podes compreender
Rasga este véu do calvário que te envolveu
Tão sublime segredo se esconde
Nesta dor que escurece o horizonte
Que por hora impedem os teus olhos de contemplarem
O eterno presente do tempo
O ausente o presente em segredo
Na sagrada saudade que deixa continuar
Deixa morrer o que a morte já sepultou
Deixa viver o que dela ressuscitou
Não queiras ter o que ainda não pode ser
É possível crescer nesta hora
Mesmo quando o que amamos foi embora
A saudade eterniza a presença de quem se foi
Com o tempo esta dor se aquieta
Se transforma em silencio que espera
Pelos braços da vida um dia reencontrar.