quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Viver é pintar

Naquele dia tão bonito, escolheu pintar as janelas da casa com verniz escuro só pra ver se o azul do céu e o brilho do sol se destacavam mais no interior daquele recinto. Escolheu, com isto, afetar sua alma. Nas andanças da vida, ela aprendeu que cada ser pode pintar sua janela como deseja. E por isso mesmo percebeu que a cor não significava nada se a vida do pintor não tivesse lá muito sentido. Portanto, mesmo que pintasse por fora com cores vibrantes, por dentro ela saberia que seu movimento de vida não era tão perfeito, nem unicamente alegre, embora o desejasse assim. Mesmo que pudesse escolher cores daquela natureza, decidiu pintar a janela com as nuances das suas dores, e assim enxergar a harmonia entre o obscuro das experiências vividas e as possibilidades de iluminar sua vida com o sol que lhe aparecia a cada dia. Ela escolheu não esquecer sua história, mas não deixar de contemplar o mundo e suas belas cores que o novo lhe trazia. Quando entendeu que pintar não exigia perfeição e sim desejo e verdade, ela escolheu pintar, pintar, pintar (...) e viver.

Lidiane Araújo, 28/12/2012




terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Para a flor

Lembro-me de que certa vez me enviaram uma mensagem sobre a  flor e o sentido que a envolvia, no entanto não sabia ao certo se era precisamente para mim ou se não se tratava daquelas mensagens impessoais que apertamos o botão e seguem para todos os contatos listados em nossos e-mails.

Fiquei pensativa e até contente com o que li. Quis até responder. Mas como podia não ser exatamente para mim, achei que nada havia de ser dito, apenas sentido. Na vida tenho visto  gente que só se preocupa em divulgar emoções aos quatro cantos e acaba esquecendo de vivê-las. Mas, assim como não se permitir senti-las não seja muito bom, talvez não dizê-las também não o seja.

Quem sabe nessa minha dúvida eu não tenha incorrido no erro de apenas sentir e deixar de dizer (como o fato de não ter respondido aquela mensagem)? Quem sabe até eu tenha julgado o remetente por só se preocupar em publicar seus supostos afetos, independetemente de experienciá-los ou estarem relacionados ao(s) destinatário(s)? Quem sabe ele não imagine que seu erro é o meu e o meu, o seu?  

Quem sabe, quem sabe, quem sabe...  

Ah! Os extremos, a incompreensão, a fuga de si mesmo, as suposições... Estas sim são facetas perigosas, para além do jeito de ser de cada ser.

Afinal, se não era para mim, por que senti tanta inquietude com o que li? Parece até que tenho estado à espera de um diálogo carregado de inteireza, com pessoa que pensa e que sente, aliás, comigo do jeito que sou, inclusive sem bloqueios para responder o que talvez não tenha sido entregue exatamente para mim. O que sei é que se a flor me afetou, é porque faz parte de mim de algum modo. Talvez seja por isso que esteja escrevendo agora, na tentativa de expressar algo que apenas tenho sentido.



Finalmente, de flor para flor, desejo que nos permitamos, vivamos plenamente, amemos incondicionalmente e (nos) perdoemos!



Feliz Ano Novo!

Com sinceros votos de felicidades,
A flor

Lidiane Araújo, 27/12/2011

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Vestiduras que desnudam

Hoje veio visitar-me
Não porque de fato apetecesse
Era preciso, no entanto, encontrar-me

Para ver-me, escolheu suas mais belas vestes
Sedução, sensibilidade, charme e paixão
Foram tantos os indumentos!

Embora usasse muitas vestiduras
Não entendia ao certo aquele movimento
Seus olhos de ressaca refletiam mistérios

E eu só o fitava com o olhar atento
Da liberdade que me revestia
E suas vestiduras ofereci ao vento
















Lidiane Araújo, 01h03min, 11/11/11

sábado, 24 de setembro de 2011

(Eu) Luto

Novamente ela, a morte, insistira em visitar os meus. Desta vez ela tem sido demasiadamente sorrateira. Não levou consigo quem estivesse no tempo de partir. Pelo contrário, ela esteve aqui, aliás... continua aqui para matar a conta gotas uma relação que parecia ser jovial e ter uma extensa estrada pela frente.

Deste ser a morte já arrebatou a atenção, o carinho e a compreensão. Deixou, no entanto, um corpo forte em rancor e medo e um espírito fragilizado e escasso de afeto, necessitando dos outros extrema piedade para com o seu estado de degradação.

Sinto que só mesmo com muita força ela conseguirá escapar. Para tanto, tenho feito o possível para ajudá-la. Não tenho permissão para visitá-la, mas até com meus pensamentos, direta ou indiretamente, tenho invadido a sua UTI. Quero apenas dizer-lhe que se há uma vida pela qual preservar, faço o que for necessário para fazê-la viver, desde que ela queira seguir contemplando esta possibilidade como um desejo inerente a sua condição de ser.

A sua vida parece estar por um fio, ou melhor, parece estar em suas mãos. Embora esteja hospitalizada e sob cuidados médicos, ela mais parece estar num penhasco. De um lado há quem anseie por seu regresso e, portanto, lhe ofereça as mãos para agarrá-la e trazer-lhe de volta ao convívio saudável. Por outro lado, embora tenha este aparato à disposição, ela parece ter escolhido a morte como realidade próxima.

Ao cobiçar a morte, dispensa-se a possibilidade de lutar pela superação da dor. Indiscutivelmente, esta é uma experiência profundamente difícil. E quem disse que viver é fácil? Assim como amar pressupõe cuidados que nem sempre são concebidos como bons, viver é uma arte que requer atenção. Em qualquer relacionamento sadio, subentende-se que um dia as partes experimentaram o diálogo denso e a tristeza para, seguidamente, vivenciarem genuinamente a liberdade para serem alegres.

Em outras palavras, nem sempre a nossa vida será alegre em sua completude. Sofrer hoje, talvez, seja uma etapa necessária para alimentar e potencializar um afeto e esperança fragilizados. Desistir, embora não seja muito exitoso, é muito prático para mascarar a dor, apagar o passado e se distanciar de quem um dia foi a gênese da sua preocupação. Acrescente-se a isto a pior das distâncias: a distância de si mesmo. Esta, indubitavelmente, empobrece o ser, faz dele vítima, limita seu crescimento e o aliena de seus desejos, sentidos e verdades.

Infelizmente, parece-me que ela escolheu o caminho da praticidade. Apesar de ter feito o que me foi possível para lutar por sua sobrevivência, ela agora está em profundo silêncio. Será que morreu? Há dias tenho questionado esta possibilidade. E só em pensar nisto uma parte de mim também parece ter partido. Mesmo que eu reconheça que meu envolvimento neste processo foi intenso, senti falta do outro lutando por esta causa. Ainda assim, tenho sofrido com sua ausência de forma inenarrável.

Compactuando com as palavras de Caio Fernando Abreu, hoje clamo “Oh Deus, como é triste lembrar do bonito que algo ou alguém foram quando esse bonito começa a se deteriorar irremediavelmente”.



Da experiência vivida, o que me resta é o luto por esta perda.

Ao buscar forças para me desvencilhar da confusão que me involucrara, encontrei em “perdas necessárias” o impulso vital para despertar minha força interna para seguir. Ao me envolver com sua voz suave e firme, os dizeres do Pe. Fábio de Melo ofereceram a mim o acolhimento tão desejado. E, assim, a dor e a angústia materializados em meu sofrimento de luto vivido nos últimos dias puderam então ser mitigados.

Para o meu consolo e esperança, contento-me com estas palavras que me propelem a viver o meu presente. E voltar a viver o presente é a graça mais valiosa que a vida hoje me oferece. Agora sim... outra vez estou a favor do vento que parece soprar aos meus ouvidos que devo usar aquilo que me foi desfavorável para uma finalidade: o meu crescimento.



Perdas Necessárias

Deixa partir
O que não te pertence mais
Deixa seguir o que não poderá voltar
Deixa morrer o que a vida já despediu
Abra a porta do quarto e a janela
Que o possível da vida te espera
Vem depressa que a vida precisa continuar
O que foi já não serve é passado
E o futuro ainda está do outro lado
E o presente é o presente que o tempo quer te
entregar
Fala pra mim
Se achares que posso ouvir
Chora ao teu Deus se não podes compreender
Rasga este véu do calvário que te envolveu
Tão sublime segredo se esconde
Nesta dor que escurece o horizonte
Que por hora impedem os teus olhos de contemplarem
O eterno presente do tempo
O ausente o presente em segredo
Na sagrada saudade que deixa continuar
Deixa morrer o que a morte já sepultou
Deixa viver o que dela ressuscitou
Não queiras ter o que ainda não pode ser
É possível crescer nesta hora
Mesmo quando o que amamos foi embora
A saudade eterniza a presença de quem se foi
Com o tempo esta dor se aquieta
Se transforma em silencio que espera
Pelos braços da vida um dia reencontrar.

terça-feira, 16 de agosto de 2011

Sem limites para me transformar

Como quem faz uma viagem para se distanciar de algo, saí de mim para ver-me como sou sem a roupa social que me vestia. Nesta saída tive muito sucesso; a aparente distância me aproximou muito mais de mim, mas o que fiz depois não foi muito exitoso: quis dar contornos ao meu vivido e à minha experiência construída ali.

Ao desenhar-me, perdi-me. Naquele momento, eu que supunha capturar um lugar dentro de mim, deixei-o escapar. Quando tentei desenhar a minha natureza, a folha saiu e meu contorno se esvaiu.

E assim nada restou para explicar, pois meu desenho a mim não conseguiu alcançar. Por quê? Não consegui compreender. O fato é que o desenho que fiz minúsculo se tornou. Era difícil, em simples traços, contornar o que era e hoje sou: um ser singelo, mas grandioso como o mar. Passagens assim aquela folha não poderia abarcar.

Se naquela viagem, com os olhos do coração eu tivesse filmado a minha experiência, hoje não haveria confusão. Ao invés de preocupação com as definições ou meus contornos, hoje sentiria emoção por não saber quem eu sou e alegrias por me satisfazer em apenas viver/sentir.

Mas o meu querido tempo é flexível e revelador; cronológico ele não é simplesmente. Ele vai e volta como o mar. Quando tomei a minha decisão de voltar, pude então a minha experiência admirar.

Ao me ver, constatei: sou cheia de contornos e sem limites para me transformar. Não há desenho ou fotografia que possa me segurar. Fui feita para de tudo me libertar.





Lidiane Silva de Araújo, 03/05/11, às 21h25min.

segunda-feira, 16 de maio de 2011

Minha querida amiga

Quero te dizer que compreendo como tu te sentes neste momento e aproveito para expressar minha gratidão por assistir esse teu processo de crescimento e ver de perto a tua luta.

Sei que tu vais conseguir e tu te tornarás mais forte do que como tu te sentes hoje. Como diria o poeta, não há caminho. "O caminho se faz caminhando..."

Então, caminha... experimenta o novo, o diferente, esse desconhecido que hoje assusta e surpreende. Mas é assim, não há pra onde fugir a não ser para dentro de nós mesmas, esse lugar que acabamos nos distanciando quando, contraditoriamente, procuramos paz. Logo, este é o caminho: o teu interior. Cuida desse lugar - o teu lugar - como o mais belo cenário onde trilharás a tua busca por tua felicidade. 

Se no mundo não temos espaço que favoreça o nosso crescimento, pelo menos dentro da gente não faltará lugar para se expandir. Perseverar na existência é um processo incessante. Se tu te propuseres a crescer dentro de ti, tu te tornarás infinitamente grande. Isto eu sei, potencial de vida é o que não falta dentro de ti.


Dia timidamente solar

Estava admirando a beleza que a chuva me trouxe.
Agora, a alegria que as nuvens escondem.
Chuva ou Sol, a vida permanece bela em seus pormenores.


Sonhos extraviados

No decurso da minha estrada, foram extraviados os meus sonhos. Não tive força para segurá-los. Presumi que eles não pudessem ser completamente meus. Roubaram-nos de mim porque me faltaram forças para agarrá-los. 

E como uma leoa que protege seus filhotes... forte, então, voltei para resgatá-los. Chegando lá, sobraram-me apenas as suas carcaças. Foram devorados... todos! 

Ainda assim, seus restos mortais me inspiraram a construir novas lembranças para vivê-las em minhas novas configurações. Configurações que só uma mãe experiencia quando de uma perda querida e, ainda assim, forte sobrevive para sentir pulsar nas veias o desejo de sonhar outra vez.


terça-feira, 3 de maio de 2011

Contornos sem limites






E eu que supunha estar num lugar dentro de mim
Agora já não estou mais
Quando tento desenhar algo que delimite a minha natureza
A folha sai e meu contorno se esvai


quarta-feira, 20 de abril de 2011

A arte do encontro


Foto: arquivo pessoal


Honra-me respeitar e aceitar incondicionalmente o sentido da experiência existencial da pessoa ao meu lado. A cada encontro terapêutico, experimento a leveza que só o peso ou a importância de estar inteiramente com o outro é capaz de me oferecer. 

Reconhecer o ser em cada pedacinho que o compõe torna indispensável o reconhecimento de minhas próprias nuances. Ou seria o inverso dessa relação? Aceitando-me do jeito que sou, facilito os encontros e o acolhimento dos seres que buscam minhas mãos para com elas se entrelaçarem? Não sei ao certo como este movimento se circunscreve. 
O que me resta apenas é a certeza do sentido que o vivido me traz e isto me basta. Por buscar a inteireza na relação, a escuta torna-se profícua e o encontro, profundo e genuíno. Como é bom estar viva e enxergar vidas em movimento!

Lidiane Araújo, 19/04/2011, às 23h19min.

segunda-feira, 4 de abril de 2011

Sobre a amizade




O universo acadêmico me trouxe muitos amigos. Mas do jeito que trouxe, também os levou. Alguns poucos permaneceram, pois viram em mim mais do que eu mesma poderia ver. Os que se foram, levaram consigo uma parte irrisória de mim - meus favores ou pequenos conhecimentos. Talvez seja por isso, que na intenção de levar, esqueceram de deixar algo para que hoje eu os relembrasse como nos tempos de outrora, com sentimentos fortes, coração aberto e disponibilidade de entrega para minhas amizades. 

Os que ficaram, ainda que distantes fisicamente, preenchem um espaço imenso e genuíno do meu coração. Eles são tão ligados a mim de uma forma tão especial, que chego a pensar que é algo espiritual. E em veículos banais, tais como o orkut, e-mail ou meu celular, os nossos encontros continuam a se materializar. Na nossa relação não há condições. Somos incondicionalmente aceitos pelo outro, quer num jeito de ser, falar, chorar, sorrir ou viver. Nossos encontros não são condicionados a nada. Quando há disponibilidade de entrega entre as partes, não há o que nos desencontre. 

Ainda que não haja certeza sobre o que é a amizade, sinto que é certo não me guiar por aquilo tão falado e pouco sentido. Para mim, parece que a razão não tem razão neste cenário. Dispenso declarações quilométricas justificando a falta de uma amizade tão em falta, apesar de presente em presentes. O fato de sentir, viver e experienciar a profundidade de um encontro é o que me basta. Prefiro aqueles tropeços que a vida oferece no cotidiano, sinalizando em dores e angústias a emergência de mais um amigo para uma autêntica conversa ou escuta. Este amigo ou amiga poderá não ser de longa data, mas seu espírito longo me deixará mais próxima dele sem que me peça. A expressão para este sentimento poderá vir das mais variadas formas, nos lugares mais simples possíveis. Hoje, este sentimento se apresenta nesta mensagem e a minha intenção é unicamente de dizer o quanto gosto de ti e o quanto meu coração se alegra em guardá-lo (a) dentro de mim.


Aos meus estimados e verdadeiros amigos, um abraço apertado.


Lidiane Araújo
Texto escrito na madrugada do dia 04/04/2011