sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Ter fome



Ela cumpria com maestria as suas tarefas diárias e cuidava com primor de suas belas flores. Ela vivia na cidade, mas sua casa tinha um jardim encantador. Todos elogiavam as suas conquistas galgadas a cada dia e que eram refletidas nos seus botões de flores de todas as cores. Um tempo passou e seu jardim permaneceu cheio de graça. Apesar disto, a moça não via graciosidade naquele cenário e tampouco conseguia desfrutar do perfume que as flores exalavam e da beleza da valsa que elas dançavam quando impelidas pelo movimento rítmico do vento. A manutenção daquele jardim foi ficando cada vez mais afanosa e sem sentido. Sem saber o que fazer, só restou àquela moça uma saída urgente: procurar um florista amigo. Ao ter com ele, de imediato emplacou a sua interrogação angustiante:

– Senhor, o que devo fazer com o meu jardim? Ele era tão bonito, as pessoas ainda acham que ele o é, mas vejo que minhas flores parecem ter perdido o brilho e o perfume que lhe eram nativos.

Sem pestanejar, o florista descansou com atenção o seu olhar nas feições daquela mulher aperreada. Sem ter uma solução para o problema, devolveu-lhe outra indagação não menos angustiante: – Tu amas o que fazes? Ou melhor, tu te amas ao fazer o que fazes com o teu jardim? 

Desconsertada, a moça proferiu outra pergunta que pudesse aplacar o seu desconchavo: – Mas o que isso tem a ver? Não falo sobre mim, falo de flores, meu amigo!

– Eu conheço suas flores, sei que são belas. Aliás, quando tu te propões a cuidar do que gostas, tudo aquilo que tocas tu consegues revestir de beleza. Não te dou conselhos sobre condições de solo, poda, umidade ou exposição solar, pois imagino que tuas flores merecem outros cuidados. É difícil explicar, mas penso que o teu dilema está fora do teu jardim, no teu modo de ver as tuas flores. Se todos as enxergam como graciosas, por que apenas tu as percebes como modestas?

Humilde, o sábio florista reconheceu que não saberia lhe dizer com clareza o que essas questões tinham em comum, embora sentisse que todas elas tinham uma mesma ascendência, isto é, todas tinham a sua raiz nas questões da existência. Em aditamento a esta falta de resposta, disse que a única coisa que poderia lhe fazer era contar uma história. Se este conjunto de fatos lhe suscitasse algum sentido, a moça iria descobrir por si mesma. Pronto, isto foi o que ele tentaria fazer, não fosse o atropelo verbal de Malu. Ao perceber que não poderia fugir daquela pergunta e, ainda, que a sua resposta deveria ter a raiz nas profundezas do seu ser, Malu ensaiou uma resposta. No entanto, falou muito mais sob pressão do que por intento próprio, achando-se sábia no que dizia:

– Bem... assim... é... eu me amo. Tipo, eu me amo, mas eu preciso me amar mais, certo?! O que eu queria mesmo é que as pessoas também me amassem mais. Na realidade, eu me amo, mas sou desejosa de ser desejada. Entendeu?

– Deseja a ti mesma e serás desejada, retrucou o florista.

– Como assim? Não, assim eu seria desejada por mim e isto não me basta.

– Sim, serás desejada por ti. Aí é que está o segredo. Dizem que o desejo só pode ser despertado no outro quando ele ocorre por si mesmo. Em outras palavras, a criatura só pode ser desejada se for também amada. Dizem que as criaturas amadas liberam um perfume inigualável. Ele tem notas que não se compram nos perfumes do armazém, mas vão se formando com o tempo e vão se aprimorando e harmonizando na própria pele como se fossem uma coisa só, como só o que é verdadeiro pode ser: único. Mas este amor primeiro precisará sair de ti, ó criatura. Como queres enxergar beleza em teu jardim, em tua vida, se os olhos que contemplam o teu entorno estão embaçados?! Viver é ter um jardim. Se não gostas do teu, parece-me que não gostas do que ele representa para ti, o que não significa que ele não seja belo. Se teu jardim é um fardo, tu não poderás enxergar leveza em tuas flores. Ter jardim só faz sentido quando a experiência de regar as flores e cuidar do nosso solo não se torna uma obrigação, mas cuidado, respeito e amor. Minha amiga, viver é sentir a fome que não se sacia. Parece-me que já estás saturada deste jardim, não é?! Como apreciá-lo, então, se não tens fome para contemplá-lo?!

Sem palavras, Malu não sabia mais o que buscava na casa do florista amigo, mas compreendia uma coisa: é impossível discutir tema algum sem fazer alusão ao que se vive. O silêncio tomou conta do espaço. Cada parede daquele cenário estava impregnada com um autêntico perfume que mais parecia ter muitas notas estruturantes, sobretudo a nota marcante da sabedoria organísmica. Sem resposta, mas ancorando um turbilhão de reflexões em seu peito, Malu foi calada pelo barulho que dela surgia. Este barulho só tinha um nome: fome. A sua fome era tão grande que não cabia nas palavras. Embora não tivesse ouvido a história que o florista desejara lhe contar, ela saiu daquele lugar sem hesitar, pois a fome era demais a lhe importunar.

Nenhum comentário:

Postar um comentário