Ela cumpria
com maestria as suas tarefas diárias e cuidava com primor de suas belas flores.
Ela vivia na cidade, mas sua casa tinha um jardim encantador. Todos elogiavam
as suas conquistas galgadas a cada dia e que eram refletidas nos seus botões de
flores de todas as cores. Um tempo passou e seu jardim permaneceu cheio de
graça. Apesar disto, a moça não via graciosidade naquele cenário e tampouco conseguia
desfrutar do perfume que as flores exalavam e da beleza da valsa que elas dançavam
quando impelidas pelo movimento rítmico do vento. A manutenção daquele jardim foi
ficando cada vez mais afanosa e sem sentido. Sem saber o que fazer, só restou
àquela moça uma saída urgente: procurar um florista amigo. Ao ter com ele, de
imediato emplacou a sua interrogação angustiante:
–
Senhor, o que devo fazer com o meu jardim? Ele era tão bonito, as pessoas ainda
acham que ele o é, mas vejo que minhas flores parecem ter perdido o brilho e o
perfume que lhe eram nativos.
Sem
pestanejar, o florista descansou com atenção o seu olhar nas feições daquela
mulher aperreada. Sem ter uma solução para o problema, devolveu-lhe outra
indagação não menos angustiante: – Tu amas o que fazes? Ou melhor, tu te amas
ao fazer o que fazes com o teu jardim?
Desconsertada,
a moça proferiu outra pergunta que pudesse aplacar o seu desconchavo: – Mas o
que isso tem a ver? Não falo sobre mim, falo de flores, meu amigo!
– Eu
conheço suas flores, sei que são belas. Aliás, quando tu te propões a cuidar do
que gostas, tudo aquilo que tocas tu consegues revestir de beleza. Não te dou
conselhos sobre condições de solo, poda, umidade ou exposição solar, pois
imagino que tuas flores merecem outros cuidados. É difícil explicar, mas penso
que o teu dilema está fora do teu jardim, no teu modo de ver as tuas flores. Se
todos as enxergam como graciosas, por que apenas tu as percebes como modestas?
Humilde,
o sábio florista reconheceu que não saberia lhe dizer com clareza o que essas
questões tinham em comum, embora sentisse que todas elas tinham uma mesma
ascendência, isto é, todas tinham a sua raiz nas questões da existência. Em
aditamento a esta falta de resposta, disse que a única coisa que poderia lhe
fazer era contar uma história. Se este conjunto de fatos lhe suscitasse algum sentido,
a moça iria descobrir por si mesma. Pronto, isto foi o que ele tentaria fazer,
não fosse o atropelo verbal de Malu. Ao perceber que não poderia fugir daquela
pergunta e, ainda, que a sua resposta deveria ter a raiz nas profundezas do seu
ser, Malu ensaiou uma resposta. No entanto, falou muito mais sob pressão do que
por intento próprio, achando-se sábia no que dizia:
–
Bem... assim... é... eu me amo. Tipo, eu me amo, mas eu preciso me amar mais, certo?!
O que eu queria mesmo é que as pessoas também me amassem mais. Na realidade, eu
me amo, mas sou desejosa de ser desejada. Entendeu?
– Deseja
a ti mesma e serás desejada, retrucou o florista.
– Como
assim? Não, assim eu seria desejada por mim e isto não me basta.
– Sim,
serás desejada por ti. Aí é que está o segredo. Dizem que o desejo só pode ser
despertado no outro quando ele ocorre por si mesmo. Em outras palavras, a
criatura só pode ser desejada se for também amada. Dizem que as criaturas
amadas liberam um perfume inigualável. Ele tem notas que não se compram nos
perfumes do armazém, mas vão se formando com o tempo e vão se aprimorando e
harmonizando na própria pele como se fossem uma coisa só, como só o que é
verdadeiro pode ser: único. Mas este amor primeiro precisará sair de ti, ó
criatura. Como queres enxergar beleza em teu jardim, em tua vida, se os olhos
que contemplam o teu entorno estão embaçados?! Viver é ter um jardim. Se não
gostas do teu, parece-me que não gostas do que ele representa para ti, o que
não significa que ele não seja belo. Se teu jardim é um fardo, tu não poderás
enxergar leveza em tuas flores. Ter jardim só faz sentido quando a experiência
de regar as flores e cuidar do nosso solo não se torna uma obrigação, mas
cuidado, respeito e amor. Minha amiga, viver é sentir a fome que não se sacia.
Parece-me que já estás saturada deste jardim, não é?! Como apreciá-lo, então,
se não tens fome para contemplá-lo?!
Sem
palavras, Malu não sabia mais o que buscava na casa do florista amigo, mas
compreendia uma coisa: é impossível discutir tema algum sem fazer alusão ao que
se vive. O silêncio tomou conta do espaço. Cada parede daquele cenário estava
impregnada com um autêntico perfume que mais parecia ter muitas notas
estruturantes, sobretudo a nota marcante da sabedoria organísmica. Sem
resposta, mas ancorando um turbilhão de reflexões em seu peito, Malu foi calada
pelo barulho que dela surgia. Este barulho só tinha um nome: fome. A sua fome
era tão grande que não cabia nas palavras. Embora não tivesse ouvido a história
que o florista desejara lhe contar, ela saiu daquele lugar sem hesitar, pois a
fome era demais a lhe importunar.
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