sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

[A]Corda!

Dias comuns. Metas a cumprir. Prazos e compromissos pré-estabelecidos. Tudo parecia seguir seu movimento rítmico habitual. Mais uma vez acreditava que iria cumprir seus objetivos com admirável rigor e perfeição, isto porque ser do jeito que se era pressupunha agir sistematicamente daquela forma socialmente desejada.

Bem lembrado... “do jeito que se era” ela só poderia agir com esplendor aos olhos daquela platéia. Tardou a ocorrer, mas havia chegado o dia em que aqueles dias se transmutariam. Pois bem, os dias comuns tornaram-se tensos, vazios, cheios de prazos e compromissos praticamente inalcançáveis.

O ritmo da vida foi ficando mais intenso, mas sem nenhuma intensidade na vida daquela mulher. Resultado: sensação de fracasso. Poderia ela se sentir assim? Será que ela não aprendeu, com vivências precedentes, que não se poderia se perder no caos que a vida oferece? Será que não conseguia ouvir a si mesma, perfilhando o que passava dentro de si? Como poderia estar tão alienada, esmagando-se em nome de metas que não eram propriamente suas, mas que ainda assim sobressaíam-se na lista de suas tarefas mais urgentes?

Apesar de ser responsável pela escolha que constituíra o motivo de sua angústia e distanciamento de si, ela se irritou profundamente por passar por mais uma experiência caótica de sua vida, ainda que esta tivesse sido por ela apoiada. Mas nem tudo estava perdido. Ela poderia querer não enxergar o que via, como ocorre usualmente com a [desu]humanidade. E assim foi resguardado àquela garota todo o direito de sentir-se irritada, pois só reconhecendo sua dor e experienciando este sentimento ela poderia, enfim, desejar se livrar daquele estado.

E como uma nascente que fornece água a um rio, ela permitiu que brotasse uma pequena lágrima. E ali, naquele momento supostamente de fracasso, aquela lágrima alimentou o rio que atravessava sua vida. E foi assim que, aparentemente minúscula, aquela gota fecundou a sua necessidade de impulsionar o fluxo que regia a sua vida. Neste tempo, seu desejo era o de estar consciente e envolvida por suas experiências, ainda que estas fossem configuradas em momentos de pranto. Afinal, fontes que brotam prantos também mobilizam rios. E naquele dia, ainda que não fosse esperado que um choro provocasse tamanha alegria, ao fim de tudo, ela se embelezou por celebrar sua vida e reconhecer a sua força diante das experiências vividas.

Para ela, aquela santa semana foi como tudo e nada: sem expectativas para o desfecho dessa experiência, nada pôde confiar. Mas pôde encontrar tudo o que sua alma esperava: regressar para o seio seu em busca de paz por estar em sua própria companhia. E assim ela percebeu que os dias tensos ocorreram para que ela vivesse a experiência de se recusar a seguir aquele ritmo externo à sua condição, o que a direcionou, por conseguinte, a respeitar e admirar seu próprio ritmo para dançar divinamente as músicas que a vida lhe oferecia.

E a morte, que sempre a assustava, agora se expressava mais forte do que nunca. Na sua existência, por exemplo, tem vivenciado várias “mortes” no cotidiano. Este fato, contrariamente, tem sido profícuo para o seu processo de reconhecer que às vezes é preciso matar características que a sufocam para dar vazão à vida que lhe subjaz... abrindo espaço para que sua vida ganhe uma força ainda maior.

Hoje, central é, pois, em sua vida que a confiança em seu organismo torne-se crescente. E que suas experiências sejam vividas livremente, como é o caso da “morte”, que saiu da esfera do medo e da rigidez para compor o cenário da sua vida, dignificando sua condição de existência e expansão.

E naquele dia, com esta perspectiva de transformação, advinda do contato com suas experiências, ela:

1. Acordou. 2. Enforcou seus problemas. 3. Matou sua dor.

Noutras épocas de sua vida, um momento de angústia como esse poderia levá-la ao seu próprio fim. No entanto, ela transformou seu sofrimento em mais uma experiência de contato consigo mesma, em detrimento do afastamento que adoece o ser e o faz embrutecer.

E foi assim que neste dia, enforcada a sua dor, decidiu usar sua corda para outro propósito: pular. Isto mesmo, aquela atividade que fazemos para nos divertir...

Lidiane Araújo
João Pessoa, 24 de fevereiro de 2012.

Imagem: arquivo pessoal.

Liberdade selvagem

Decidi não mais aceitar amores condicionais
Permitir ser amada desse jeito é muito restrito
Adaptar-me a limites é meu verdadeiro conflito

Nas entrelinhas das insatisfações que os limites sobrepõem a mim
Novas possibilidades começam a surgir
Atreladas a elas um só desejo existe

O ideal que um Mustang exibe
O real que meu ser exige
Viver sem limites



Lidiane Araújo
João Pessoa, 24 de fevereiro de 2012.

No presente, um movimento

Uma caminhada. Um passo
Um desejo de caminhar. Um desejo de desejar dar um passo
Quero o primeiro desejo
Se não o tenho, contento-me em intentar desejar

Ousar desejar já é um movimento
Da vida gritando aos ventos
Que o que vale na vida é o movimento
Da vida movimentar

Até aqui, eu fui...
Para o amanhã, serei...
Cortejando o risco de tolher meu movimento
Àqueles dois tempos já me aprisionei

Decidida, lancei-os ao vento
Um presente ganhei
Multifacetado e fugidio
O embrulho veio assaz escorregadio

Para agarrá-lo
Foi preciso estar inteira
Na medida em que me permito ser o que sou
Os diversos tempos se encontram num só tempo

Nesse momento, tudo conflui para que eu assegure o meu presente
Tudo conflui. Apenas isto
Receber não significa abrir
Ainda é preciso um movimento

Cabe a mim esse propósito
Abrir os braços e cerrá-los com firmeza
E, na leveza, libertar a mão da descoberta
Que num só movimento abre o embrulho com destreza

E ao fim de tudo...
Ao fim de mais uma etapa do processo
Ao contemplar o presente descoberto
Vejo que o tempo presente é o presente que a vida quer me ofertar

No movimento, um presente
No presente, um movimento
Um desejo de movimentar
E meu movimento partilhar




Lidiane Araújo
João Pessoa, 20 de fevereiro de 2012