quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Num sonho, a filha caçula e seu painho



Cinco de novembro de 1996. Ele saiu. Sua alma permaneceu no apartamento, ou melhor, ela acompanhou sua filha em todas as residências onde viveu depois daquela sua longa viagem. Para todos, ele havia partido para um destino sem volta. Para ela, ele sempre esteve presente e cotidianamente preenchia todo o aparente vazio que imbuía seu lar. De um lado, os adultos nada enxergavam; do outro, a menina sempre podia ter acesso a tudo, inclusive às notícias do pai que viajara. Que coisa! Esses julgamentos alheios e as verdades vivenciadas pela menininha eram tão dissonantes! Pois é, mas algo parecia fazer sentido... É isso mesmo, dizem que só as crianças têm acesso a algumas verdades!

Foi preciso que a menina crescesse para dar conta de que ele realmente havia partido. Peraí, mas ela continuou a senti-lo e agora mais ainda, pois entrou em contato profundo com ele. Foi então que ele voltou – mesmo sem ter ido – e comunicou sobre sua viagem definitiva. Foi doloroso para a garota, pois vivenciou sozinha o funeral do pai já finado. Que loucura! Pois bem, foi assim que sua experiência foi denominada pelos “outros”: uma loucura, um verdadeiro disparate! Como é que aquela menina não percebeu que seu pai já havia partido?

Apesar de tudo, aquela separação parecia ser aceitável. Afinal, a filha caçula parecia ter crescido. E a certas coisas gente grande como ela não podia mais ter acesso. Ou seja, ela não podia mais encontrar seu pai como o fizera até então, quando criança. Pois é, ela não podia mais vê-lo, exceto na despedida. E foi neste momento que ela abriu as portas para que o seu grito ancestral pudesse se libertar. Ainda febril, ela chorou e chorou com a alma. Não obstante a dor do luto alegrou-se, pois seu pai veio vê-la e tomou o devido cuidado para explicar o motivo da sua ausência. Ela aceitou sua partida. Com efeito, ela pôde se igualar aos outros, pois vivenciou o sofrido luto pela morte do querido pai.  Em meio a essa confusão toda a filha caçula tornou a viver, pois dignificou sua existência ao fim de tudo, quando reconheceu a morte simbólica de seu pai, em julho de 2010. Mesmo adulta, a garota continuou sendo a filha caçula de seu estimado painho, que a amara incondicionalmente, inclusive naquele sonho revelador.

Contando essa história da garotinha... aproveito para externar  meu sentimento de amor, carinho e admiração ao senhor meu pai, que mesmo distante tem facilitado o meu crescimento.

Lidiane Araújo, a 10/08/2010, 02h53min.

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