quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

A confusão na imensidão do ser



Depois daquele dia, ela se transformou visivelmente. Sinto que cresceu em busca de si mesma. Mas este caminho não tem sido fácil de percorrer, pois nele há espaços para diferentes emoções que compõem, naturalmente, a sua condição humana.
Na madrugada da segunda-feira, por exemplo, ela ficou imersa em diversos sentidos confundidos com cansaço e tristeza por ver seu corpo em pedaços, em decorrência do seu próprio atropelo em ter passado diversos dias sem dormir. Neste momento, não conseguiu compreender a si mesma, a não ser por sua profunda dor. Esta dor que decorre da angústia de ser ela mesma, de escolher, enfim, de ser livre das amarras que não lhe pertencem, a não ser da responsabilidade em sustentar suas ações.
Apesar de tudo, a dor vigora. Mas se esta dor tem uma raiz subjacente, arraigada e profundamente real em seu ser, por que ela se sente triste por percebê-la, se a referida dor constitui uma parte que a integra? Nossa! Como ser o que se é e se aceitar o que se sente tem sido deveras doloroso! Ela só está assim porque se permitiu a lutar por um sonho, um sonho que a sufocou.
Que contradição! Como seria se sufocar em busca de um desejo? Ah, isto ela sabe explicar bem, pois viveu genuinamente esta emoção de suprimir a si mesma nos últimos dias. Logo, em sua experiência, notou que alcançar seu sonho, na pior das hipóteses, seria o seu próprio fim. É por isso que o que ela sente hoje só tem um nome: confusão; e esta confusão só preenche um espaço: a imensidão do seu ser.
Ela lutou tanto nos últimos tempos! Mas seu desejo de aprovação parecia inalcançável como efeito do seu envolvimento com tantos outros sonhos, dentre os quais se tornar ela mesma, mas ainda assim tentou. Entretanto, submeter-se à prova que a levaria em busca desse primeiro desejo anularia, por conseguinte, a sua batalha pela vida, por uma existência livre/leve. Assim, de algum modo acredito que esta moça teve uma e a mais importante aprovação nesta história: o fato de aprovar a si mesma, respeitando sua própria vida, em cada pedacinho que a compõe, inclusive na sua dor e confusão. Nesta seleção, o resultado que adviria do seu esforço, do seu atropelo não chegou, pois sequer ela conseguiu angariar forças para “sobreviver” ao grande dia. Isto parece um suicídio com data marcada e tudo o que há de direito. Sim, aos olhos dos outros é o que parece ser!
É difícil compreender como um esforço incomensurável foi galgado, sobretudo, ao longo das últimas semanas... e este tenha findado no momento exato em que se presumiria que ele fosse substituído pela sensação de um dever cumprido, de uma estimada conquista ou vitória. Mas não foi assim! No momento imediato em que visualizou a hora esperada chegar e vê-la deixar passar (...), suscitou nela uma imensa dor, sinônimo de tristeza e adormecimento. Diria, ainda, que ela embruteceu, perdeu os sentidos; ou melhor, na verdade, no âmago do seu vivido, naquele momento, deitada em seu leito, aquele sonho perdera o sentido. Era chegada a hora da morte.
Por suposto, a única coisa que parecia fazer sentido era salvar a si mesma, preservar sua saúde, seu desejo pela vida. Então, acho que quem protagonizou este suicídio não foi ela, mas o “seu” referido sonho. Como deixar passar o tão sonhado dia? Apesar de tudo, para aquela jovem alguma razão subjazia àquela aparente estupidez de deixar seus sonhos passarem. Esta razão consistiu em matar um sonho para salvar-se em seguida. Foi muito triste assistir de perto a esta história; apesar das dificuldades, posso dizer que ela sobreviveu. Sua sobrevivência só se fez possível quando reconheceu sua fraqueza diante daquele sonho avassalador e, por outro lado, quando reconheceu sua força diante da vida.
Para a garota, a lição que fica é: qualquer que seja o sonho, é preciso estar inteira para desfrutá-lo em sua plenitude; caso contrário, o sonho pode se transmutar em pesadelo.
E como diz uma grande amiga, qualquer que fosse o resultado da história, “no final tudo daria certo”. Pois bem, sua máxima não deixou de prevalecer: a moça não deixou de sonhar e, ao fim de tudo, como uma ave sem rumo, ela começou a vislumbrar novos vôos na tentativa de alçar novos sonhos. Quem sabe um dia este sonho de ser ela mesma não se encontre com a proposta do primeiro sonho? É, quem sabe...

Jardim Japonês - Buenos Aires (11/2009). Crédito da foto: Maninho


Lidiane Araújo
Texto escrito em 30 de novembro de 2010

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Num sonho, a filha caçula e seu painho



Cinco de novembro de 1996. Ele saiu. Sua alma permaneceu no apartamento, ou melhor, ela acompanhou sua filha em todas as residências onde viveu depois daquela sua longa viagem. Para todos, ele havia partido para um destino sem volta. Para ela, ele sempre esteve presente e cotidianamente preenchia todo o aparente vazio que imbuía seu lar. De um lado, os adultos nada enxergavam; do outro, a menina sempre podia ter acesso a tudo, inclusive às notícias do pai que viajara. Que coisa! Esses julgamentos alheios e as verdades vivenciadas pela menininha eram tão dissonantes! Pois é, mas algo parecia fazer sentido... É isso mesmo, dizem que só as crianças têm acesso a algumas verdades!

Foi preciso que a menina crescesse para dar conta de que ele realmente havia partido. Peraí, mas ela continuou a senti-lo e agora mais ainda, pois entrou em contato profundo com ele. Foi então que ele voltou – mesmo sem ter ido – e comunicou sobre sua viagem definitiva. Foi doloroso para a garota, pois vivenciou sozinha o funeral do pai já finado. Que loucura! Pois bem, foi assim que sua experiência foi denominada pelos “outros”: uma loucura, um verdadeiro disparate! Como é que aquela menina não percebeu que seu pai já havia partido?

Apesar de tudo, aquela separação parecia ser aceitável. Afinal, a filha caçula parecia ter crescido. E a certas coisas gente grande como ela não podia mais ter acesso. Ou seja, ela não podia mais encontrar seu pai como o fizera até então, quando criança. Pois é, ela não podia mais vê-lo, exceto na despedida. E foi neste momento que ela abriu as portas para que o seu grito ancestral pudesse se libertar. Ainda febril, ela chorou e chorou com a alma. Não obstante a dor do luto alegrou-se, pois seu pai veio vê-la e tomou o devido cuidado para explicar o motivo da sua ausência. Ela aceitou sua partida. Com efeito, ela pôde se igualar aos outros, pois vivenciou o sofrido luto pela morte do querido pai.  Em meio a essa confusão toda a filha caçula tornou a viver, pois dignificou sua existência ao fim de tudo, quando reconheceu a morte simbólica de seu pai, em julho de 2010. Mesmo adulta, a garota continuou sendo a filha caçula de seu estimado painho, que a amara incondicionalmente, inclusive naquele sonho revelador.

Contando essa história da garotinha... aproveito para externar  meu sentimento de amor, carinho e admiração ao senhor meu pai, que mesmo distante tem facilitado o meu crescimento.

Lidiane Araújo, a 10/08/2010, 02h53min.