terça-feira, 28 de maio de 2013

O que importa?

Se ao menos tu te importasses comigo
O céu conteria seu pranto
Meu rosto hospedaria sorrisos
A natureza daria volume ao canto dos pássaros

Se ao menos eu não me importasse contigo
Meus cabelos teriam mais brilho
Minha face, poucos arranhões
Minhas pálpebras conheceriam o sono dos justos

Se ao menos eu não me importasse comigo
Mais genuíno seria meu sorriso
Mais doce o meu olhar
Eu não cantaria prejuízos

Se ao menos eu não me importasse em me importar
Eu teria mais motivos para, sem motivos, me alegrar
Ah, se eu não me importasse em me importar
Os pássaros seriam meu cântico, carinho de Deus a me acordar...

Lidiane Araújo, 26/05/2013

sábado, 1 de dezembro de 2012


O que sinto
Do amor que me propele a outras vidas
Da dor que me impõe uma saída
Da incerteza que me leva à descoberta
Do desejo de sair e deixar a porta aberta

Como vivo
O riso que precede o pranto
O respeito pelo meu desengano
O desejo de revirar o que não se toca
A consciência de não querer sair da oca

Como aceito
Esperar o meu progresso
Ausentando-me do processo
Querendo tudo sem ter nada
Vivendo um retrocesso e desejando o seu reverso

Lidiane Araújo

Inconstante

Eu vivo dessa inconstância de emoções
Ora choro, me arrebento em ilusões
Ora canto, divido o meu riso com as multidões
Ora grito, suplico à vida novas e intensas paixões

Eu vivo dessa constância de ser inconstante
Busco me desnudar do que me é preocupante
Envolvo-me delicadamente com uma alma mais tolerante
Liberto-me exaustivamente de tudo o que é ultrajante

Eu vivo
Choro
Canto
Grito

Eu vivo
Busco
Envolvo-me
Liberto-me


Lidiane Araújo, 30 de outubro de 2012

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Ter fome



Ela cumpria com maestria as suas tarefas diárias e cuidava com primor de suas belas flores. Ela vivia na cidade, mas sua casa tinha um jardim encantador. Todos elogiavam as suas conquistas galgadas a cada dia e que eram refletidas nos seus botões de flores de todas as cores. Um tempo passou e seu jardim permaneceu cheio de graça. Apesar disto, a moça não via graciosidade naquele cenário e tampouco conseguia desfrutar do perfume que as flores exalavam e da beleza da valsa que elas dançavam quando impelidas pelo movimento rítmico do vento. A manutenção daquele jardim foi ficando cada vez mais afanosa e sem sentido. Sem saber o que fazer, só restou àquela moça uma saída urgente: procurar um florista amigo. Ao ter com ele, de imediato emplacou a sua interrogação angustiante:

– Senhor, o que devo fazer com o meu jardim? Ele era tão bonito, as pessoas ainda acham que ele o é, mas vejo que minhas flores parecem ter perdido o brilho e o perfume que lhe eram nativos.

Sem pestanejar, o florista descansou com atenção o seu olhar nas feições daquela mulher aperreada. Sem ter uma solução para o problema, devolveu-lhe outra indagação não menos angustiante: – Tu amas o que fazes? Ou melhor, tu te amas ao fazer o que fazes com o teu jardim? 

Desconsertada, a moça proferiu outra pergunta que pudesse aplacar o seu desconchavo: – Mas o que isso tem a ver? Não falo sobre mim, falo de flores, meu amigo!

– Eu conheço suas flores, sei que são belas. Aliás, quando tu te propões a cuidar do que gostas, tudo aquilo que tocas tu consegues revestir de beleza. Não te dou conselhos sobre condições de solo, poda, umidade ou exposição solar, pois imagino que tuas flores merecem outros cuidados. É difícil explicar, mas penso que o teu dilema está fora do teu jardim, no teu modo de ver as tuas flores. Se todos as enxergam como graciosas, por que apenas tu as percebes como modestas?

Humilde, o sábio florista reconheceu que não saberia lhe dizer com clareza o que essas questões tinham em comum, embora sentisse que todas elas tinham uma mesma ascendência, isto é, todas tinham a sua raiz nas questões da existência. Em aditamento a esta falta de resposta, disse que a única coisa que poderia lhe fazer era contar uma história. Se este conjunto de fatos lhe suscitasse algum sentido, a moça iria descobrir por si mesma. Pronto, isto foi o que ele tentaria fazer, não fosse o atropelo verbal de Malu. Ao perceber que não poderia fugir daquela pergunta e, ainda, que a sua resposta deveria ter a raiz nas profundezas do seu ser, Malu ensaiou uma resposta. No entanto, falou muito mais sob pressão do que por intento próprio, achando-se sábia no que dizia:

– Bem... assim... é... eu me amo. Tipo, eu me amo, mas eu preciso me amar mais, certo?! O que eu queria mesmo é que as pessoas também me amassem mais. Na realidade, eu me amo, mas sou desejosa de ser desejada. Entendeu?

– Deseja a ti mesma e serás desejada, retrucou o florista.

– Como assim? Não, assim eu seria desejada por mim e isto não me basta.

– Sim, serás desejada por ti. Aí é que está o segredo. Dizem que o desejo só pode ser despertado no outro quando ele ocorre por si mesmo. Em outras palavras, a criatura só pode ser desejada se for também amada. Dizem que as criaturas amadas liberam um perfume inigualável. Ele tem notas que não se compram nos perfumes do armazém, mas vão se formando com o tempo e vão se aprimorando e harmonizando na própria pele como se fossem uma coisa só, como só o que é verdadeiro pode ser: único. Mas este amor primeiro precisará sair de ti, ó criatura. Como queres enxergar beleza em teu jardim, em tua vida, se os olhos que contemplam o teu entorno estão embaçados?! Viver é ter um jardim. Se não gostas do teu, parece-me que não gostas do que ele representa para ti, o que não significa que ele não seja belo. Se teu jardim é um fardo, tu não poderás enxergar leveza em tuas flores. Ter jardim só faz sentido quando a experiência de regar as flores e cuidar do nosso solo não se torna uma obrigação, mas cuidado, respeito e amor. Minha amiga, viver é sentir a fome que não se sacia. Parece-me que já estás saturada deste jardim, não é?! Como apreciá-lo, então, se não tens fome para contemplá-lo?!

Sem palavras, Malu não sabia mais o que buscava na casa do florista amigo, mas compreendia uma coisa: é impossível discutir tema algum sem fazer alusão ao que se vive. O silêncio tomou conta do espaço. Cada parede daquele cenário estava impregnada com um autêntico perfume que mais parecia ter muitas notas estruturantes, sobretudo a nota marcante da sabedoria organísmica. Sem resposta, mas ancorando um turbilhão de reflexões em seu peito, Malu foi calada pelo barulho que dela surgia. Este barulho só tinha um nome: fome. A sua fome era tão grande que não cabia nas palavras. Embora não tivesse ouvido a história que o florista desejara lhe contar, ela saiu daquele lugar sem hesitar, pois a fome era demais a lhe importunar.

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Ser vinho

O tempo é precioso. A ele a vida designou o papel de aprimorar as pessoas como se fossem vinho. O barril de carvalho é a estrada por ondem algumas delas passam e se acomodam. Quando um desses elementos se modifica, os demais se transformam em plena cumplicidade. Pronto, tudo corrobora para que todos fiquem bem ou melhores naquilo que poderiam ser ou se tornar. 
Hoje foi um dia especial para mim, o 
tempo tratou de me mostrar que estamos todos nos encorpando. Se ainda não sou como gostaria de ser, não há problema. Esta é a parte boa da história: o tempo que virá se encarregará de me tornar melhor, desde que eu aproveite cada momento no barril onde hoje me encontro. 

Um dia serei festa, alegria. O meu desejo de ser assim já me deixa feliz, pois a minha experiência de preparo anuncia o sabor que virá e o concerto que me anunciará ao encontro das taças de cristal. Viver é esperar, mas esperar só se faz possível quando percebo que o que me espera é digno. Esperar não significa ser passiva, mas generosa com o meu momento e o meu desejo de me transformar, de não ser tão ácida, ser delicada, intensa e aromática.


terça-feira, 4 de setembro de 2012

Encantar-me...


Meus olhos reclamam outras leituras
Meu corpo implora outra postura
Minha língua deseja mais ternura
Minhas mãos suplicam outros sonhos

Para o meu passo rápido, lentidão
Para o infortúnio de algumas energias, solidão
Para a ausência da alegria, outras companhias
Para o caminho tão certo, outras rodovias

Ao peito amargo, um coração leve
À dor sentida, uma palavra a ser proferida
Ao fardo que carrego, o entorno
À garganta travada, o despejo do rancor

Sobre mim, um pouco de bênção
Sob a pele que me reveste, mais verdade
Viver com mais vontade
Encantar-me um pouco mais por mim




sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Viver é sonhar


A vida não é fácil
Isto eu sei, minhas vivências precedentes me falaram
A vida não é tão difícil assim
Isto eu busco, ao olhar a luminosidade que surge do obscuro a me seguir

Para ser feliz, o que a vida nos diz?
Não esperemos nada, mas desejemos tudo!
Viver é sonhar