terça-feira, 16 de agosto de 2011

Sem limites para me transformar

Como quem faz uma viagem para se distanciar de algo, saí de mim para ver-me como sou sem a roupa social que me vestia. Nesta saída tive muito sucesso; a aparente distância me aproximou muito mais de mim, mas o que fiz depois não foi muito exitoso: quis dar contornos ao meu vivido e à minha experiência construída ali.

Ao desenhar-me, perdi-me. Naquele momento, eu que supunha capturar um lugar dentro de mim, deixei-o escapar. Quando tentei desenhar a minha natureza, a folha saiu e meu contorno se esvaiu.

E assim nada restou para explicar, pois meu desenho a mim não conseguiu alcançar. Por quê? Não consegui compreender. O fato é que o desenho que fiz minúsculo se tornou. Era difícil, em simples traços, contornar o que era e hoje sou: um ser singelo, mas grandioso como o mar. Passagens assim aquela folha não poderia abarcar.

Se naquela viagem, com os olhos do coração eu tivesse filmado a minha experiência, hoje não haveria confusão. Ao invés de preocupação com as definições ou meus contornos, hoje sentiria emoção por não saber quem eu sou e alegrias por me satisfazer em apenas viver/sentir.

Mas o meu querido tempo é flexível e revelador; cronológico ele não é simplesmente. Ele vai e volta como o mar. Quando tomei a minha decisão de voltar, pude então a minha experiência admirar.

Ao me ver, constatei: sou cheia de contornos e sem limites para me transformar. Não há desenho ou fotografia que possa me segurar. Fui feita para de tudo me libertar.





Lidiane Silva de Araújo, 03/05/11, às 21h25min.